📚 A Soberania Divina e a Responsabilidade Humana, D.A.Carson
Para Carson, essas duas ideias não são um paradoxo psicológico, mas compatibilidade bíblica.
Um ponto crucial em D. A. Carson é este:
A Bíblia nunca trata soberania divina e responsabilidade humana como um problema a ser resolvido, mas como uma realidade a ser afirmada.
Ou seja:
Não é um “paradoxo aparente” causado por limitação humana, nem duas verdades que precisam ser harmonizadas filosoficamente, mas duas afirmações igualmente verdadeiras porque a Escritura as afirma juntas.
Decreto soberano não elimina causalidade humana
Carson combate a ideia de que, se Deus decreta tudo, então as ações humanas seriam ilusórias.
Ele afirma que a Escritura trabalha com níveis distintos de causalidade:
Deus é a causa última.
O ser humano é a causa imediata e moral.
Na Bíblia:
- Nabucodonosor age por orgulho real.
- Os governantes agem por ambição política.
- Os inimigos agem por ódio.
Mas Daniel deixa claro:
“O Altíssimo governa o reino dos homens”
Carson diria que o decreto divino não substitui a decisão humana — ele a engloba. Tudo ocorre sem frustrar o Plano divino.
A liberdade humana é liberdade moral, não autonomia absoluta.
Para Carson, a liberdade bíblica ≠ capacidade de agir fora do decreto de Deus.
Liberdade bíblica = agir de acordo com os próprios desejos, intenções e inclinações. O calvinismo chamaria de "livre agência".
Em Apocalipse:
- homens blasfemam porque querem.
- perseguidores perseguem porque desejam.
- santos perseveram porque amam a verdade.
Eles não são coagidos.
O ser humano age livremente dentro dos decretos do Altíssimo.
👉O pecado humano cumpre o plano divino sem deixar de ser pecado.
Carson demonstra que, biblicamente Deus pode ordenar que algo aconteça sem jamais ser o autor moral do pecado.
Exemplo:
Atos 2.23 — Jesus foi entregue “pelo determinado desígnio e presciência de Deus”, mas os homens são culpados.
Isso ecoa Daniel e Apocalipse:
- as bestas agem com maldade real.
- os blasfemos são julgados justamente.
- o juízo não é encenação.
Atitudes que revelam escravidão no pecado.
Em Apocalipse:
- os mártires escolhem fidelidade
- os santos resistem à besta
Atos que refletem escravidão ao Messias.
A humanidade é instrumento responsável moralmente, não peça uma mecânica.
Metodologicamente, Carson alerta contra o erro de:
- forçar a Escritura a caber em sistemas filosóficos prévios
- resolver tensões que a Bíblia mantém
Daniel não explica como a soberania funciona — ele a afirma.
Apocalipse não justifica filosoficamente o juízo — ele o executa.
Neurociência e Teologia
A neurociência moderna tem indicado que as decisões humanas não surgem de uma vontade totalmente livre e autônoma, mas de processos cerebrais que antecedem a consciência. Com isso, a ideia clássica de livre-arbítrio absoluto é seriamente questionada. O ser humano não escolhe a partir de um “vácuo neutro”, mas a partir de condicionamentos internos que ele não controla plenamente.
Entretanto, a própria neurociência se depara com um paradoxo: embora questione o livre-arbítrio, ela não consegue eliminar a noção de responsabilidade humana. As pessoas ainda são responsáveis por suas ações, atribuindo culpa, mérito e intenção, mesmo sem uma base científica clara que justifique essa responsabilidade moral.
É nesse ponto que a teologia da soberania divina e da responsabilidade humana oferece uma resposta coerente. A Escritura nunca fundamentou a responsabilidade moral em uma liberdade absoluta, mas no fato de que o ser humano age conscientemente, de acordo com seus desejos e intenções, dentro do governo soberano de Deus. Assim, Deus decreta a história, e o ser humano participa dela como agente moral responsável.
Dessa forma, o que a neurociência identifica como um paradoxo, a teologia bíblica compreende como uma realidade: Deus é soberano sobre todas as coisas, e o ser humano é moralmente responsável por suas ações.
“Porque, na verdade, o Filho do homem vai segundo o que está determinado; mas ai daquele homem por quem é traído!” (Lc 22:22)
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